25 de Abril | Discurso na Sessão Solene

25 de Abril | Discurso na Sessão Solene

Sra. Presidente da Assembleia Municipal
Senhoras e Senhores Deputados,
Senhor Presidente da Câmara Municipal e Executivo,
Instituições cívicas de Oeiras,
Senhoras e Senhores autarcas hoje homenageados,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Trago uma intervenção escrita, este ano escrita este ano. Não foi escrita o ano passado. Não foi escrita há dez anos. Faço a intervenção escrita por respeito, pelo respeito por quem me elegeu, por respeito pela liberdade, pela democracia e por estarmos num órgão democrático.

Uma primeira palavra de agradecimento aos autarcas que hoje homenageamos e, neles, a todos os que, aqui em Oeiras e em todo o país, garantiram a construção de um Portugal menos desigual, com escolarização universal, acesso a direitos básicos, saneamento, garantia de cuidados de saúde e serviços públicos espalhados pelo território.


Sim, lembremos o que éramos e o que somos.


Lembremos a taxa de mortalidade infantil, quando morriam 38 em cada mil crianças no primeiro ano de vida.


Lembremos a taxa de analfabetismo, quando um em cada quatro portugueses era analfabeto.
Lembremos que a idade média da população era de 32 anos.


Lembremos que, em 1973, metade da população portuguesa não tinha água canalizada e apenas 30% tinha saneamento básico em casa.


Lembremos e digamos bem alto: não, antes do 25 de Abril o país não era melhor.

Senhora Presidente,


Assinalaram-se, a 2 de abril, 50 anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa, um momento fundamental da nossa democracia, porque consolidou as conquistas de Abril e abriu caminho a uma profunda transformação social.

A Constituição afirma uma democracia assente na soberania popular, no pluralismo partidário e na garantia dos direitos, liberdades e garantias fundamentais. Mas foi também a afirmação de um processo profundamente participado. O debate político em torno do texto constitucional foi intenso, mobilizador e, acima de tudo, expressão de uma legitimidade democrática recém-conquistada.

Escrita com uma matriz progressista, ao consagrar não apenas direitos civis e políticos, mas também direitos económicos, sociais e culturais, assume o objetivo de reduzir desigualdades e promover justiça social.

Assume a construção de uma sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna.


Assume o compromisso com a justiça social e com o papel do Estado na promoção do bem-estar coletivo.


Assume um modelo de democracia não apenas representativa, mas também participativa e social, procurando articular liberdade política com igualdade material.

Ao criar instituições como a Assembleia da República, com primado legislativo e funções de fiscalização, garantiu equilíbrio de poderes e responsabilização democrática.

Foi a Constituição de 1976 que rompeu com o quadro patriarcal, ao afirmar de forma clara o princípio da igualdade entre mulheres e homens e ao proibir discriminações com base no sexo.

Foi esse princípio constitucional que teve um efeito direto na legislação portuguesa, obrigando à revisão da legislação ordinária, incluindo o Código Civil. Eliminou-se a figura do chefe de família e estabeleceu-se a igualdade plena entre cônjuges, tanto na esfera pessoal como patrimonial.

Passou a reconhecer-se a ambos os membros do casal igual capacidade de decisão, responsabilidade parental partilhada e autonomia profissional.


São mudanças sociais construídas à luz de um novo texto constitucional, à luz de uma democracia há tanto almejada.


E é este processo que é preciso recordar.


O processo em que se afirma que a Constituição não é um mero texto normativo, mas um instrumento de transformação social.

O instrumento que permitiu a autonomia jurídica da mulher; a consagração da plena capacidade jurídica da mulher casada; a eliminação do impedimento, pelo marido, do exercício de uma profissão; a igualdade na gestão patrimonial, de acordo com o regime de bens do casamento; o exercício das responsabilidades parentais em igualdade jurídica; a proteção da mulher nas ruturas conjugais, nomeadamente ao nível de alimentos e responsabilidades; e a eliminação de normas discriminatórias, simbólicas e jurídicas, como as que condicionavam a residência do casal ou impunham deveres diferenciados em função do sexo.

Estas reformas, proporcionadas pela mudança política e pelo texto constitucional aprovado, configuraram uma profunda alteração do estatuto jurídico das mulheres em Portugal, alinhada com os valores da igualdade e da dignidade, tornando Portugal um país mais justo e mais equilibrado.

Senhora Presidente,
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Em tempos de reconfiguração político-parlamentar em todos os órgãos de decisão que a Constituição consagrou, é tempo de afirmar o que queremos para o futuro.


É tempo de lembrar que nada do que se construiu está garantido.


É tempo de repensar o funcionamento das instituições democráticas, o papel de quem elegemos para os diferentes lugares e as políticas públicas que respondem, ou não respondem, às dificuldades de cada um.

Aos eleitos locais, aos eleitos democratas, cabe honrar Abril e os seus desígnios.
Cabe respeitar os resultados eleitorais.


Cabe saber integrar novas formas de pensar e novas formas de construir.

Porque, se assim não for, seremos cúmplices da degradação democrática que se instala.


É, pois, tempo de afirmar valores.


Sem medo.


Sem baixar a voz.

Tempo de rejeitar o discurso fácil.


Tempo de recusar a política do medo.


Tempo de enfrentar a demagogia e a exploração do descontentamento.


E tempo de combater os populismos, todos os populismos.


Os que atacam instituições.


Os que descredibilizam a política.


Os que prometem soluções simples para problemas complexos.


Os que governam com propaganda.


Os que dividem para governar.

Venham de onde vierem.


Porque nenhum populismo fortalece a democracia. Todos a corroem.

E cabe aos democratas, aqui e agora, não hesitar nessa defesa.

Defender Abril, hoje, é defender a liberdade, a justiça social e a igualdade.


É defender uma democracia viva, exigente e participada.

Viva o 25 de Abril! Viva o 25 de Abril! Viva o 25 de Abril!


Viva Portugal! Viva Oeiras!

Alexandra Tavares de Moura
25 de abril de 2026