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Da retórica à prática vai um passo gigante

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Da retórica à prática vai um passo gigante

No seu programa Isaltino no Now, o presidente de Oeiras voltou a fazer aquilo que parece ser o seu desporto favorito: elogiar quem admite erros… para logo a seguir tentar fazer parecer que ele próprio nunca os cometeu.

A propósito do artigo de Pedro Nuno Santos no Público, Isaltino aplaudiu a humildade do ex-líder do PS, mas depressa transformou esse momento num espelho virado para si mesmo, esperando que todos vissem refletido um estadista visionário. O problema é que, quando olhamos com atenção, o espelho revela outra coisa: muita pose, pouca obra.

Recordou até o tal cartaz da campanha de 2017, com a jovem a exigir “Quero uma casa que possa pagar”. Um grito forte, sem dúvida. Quase tão forte quanto o silêncio das duas décadas em que nada fez para garantir que alguém, em Oeiras, pudesse realmente pagar uma casa. É admirável como, com tanto talento para slogans, ainda não percebeu que slogans não constroem prédios. Mas se calhar percebeu — apenas não era essa a prioridade. A prioridade era repetir que já tinha avisado toda a gente. A visão existia, diz ele. Pois, existia. No papel. Tal como tantas outras promessas que colecionou ao longo de 20 anos.

Em 2005, com o Plano Habitar Oeiras, estava ali tudo: diagnóstico claro, soluções delineadas, caminho definido. A habitação como base da estabilidade familiar e da coesão social. Quase poético. E o que fez Isaltino com esse plano inspirado? Arrumou-o numa gaveta.

Provavelmente ao lado de outros planos que também podiam ter resolvido problemas, mas que não davam jeito ao ritmo político que prefere: muito anúncio, pouca execução.

E assim se passaram duas décadas. Não construiu um único prédio municipal. Não criou habitação para quem precisa. Não contratou um cêntimo de dívida para avançar com projetos estruturantes — dívida essa que, quando serve para resolver problemas reais, não é um pecado, é responsabilidade. Nada disso. Durante 20 anos, manteve tudo suspenso… até que o PRR, negociado pelos governos de António Costa, caiu como uma bênção inesperada e, finalmente, algo começou a mexer.

E depois veio o momento alto da incoerência: Isaltino lamenta os preços absurdos da habitação, diz que o que custava 200 mil agora custa 500 mil — dramatiza, sofre, solidariza-se. E logo a seguir, como se tudo isto fosse um exercício académico sem impacto na vida real, aumenta em 50% o imposto sobre edificações. Cinquenta por cento. Um número tão absurdo que nem governos reconhecidos pela gula fiscal se atreveram a tal. É quase comovente ver alguém dizer que as casas estão inacessíveis… e depois carregar no botão de “tornar ainda mais inacessível”. Chama-se coerência ao contrário.

E já que estamos a falar de incoerência, não esqueçamos que durante a campanha eleitoral este aumento não mereceu uma palavra. Um detalhe ignorável, claro. Afinal, quem é que precisa de saber que o seu presidente se prepara para lhes sacar mais uns milhões?

Oeiras é um concelho desenvolvido, os cidadãos adoram surpresas. E esta veio com a colaboração útil do Chega e das vereadoras independentes militantes do PSD Oeiras, sempre prontas a dar uma mãozinha quando a mão que bate na carteira é a dos munícipes.

Como se tudo isto não bastasse, o presidente decidiu pedir 80 milhões de euros em empréstimos para várias obras prioritárias. Obras que, sim, fazem falta. Mas pedir 80 milhões enquanto se retiram 18 milhões às famílias através de impostos é uma espécie de truque de ilusionismo municipal: com a mão esquerda diz-se que se investe no futuro; com a direita, esvazia-se o bolso de quem vai pagar esse futuro.

Gerir não é isto. Gerir não é mandar vir obras como quem pede pratos num restaurante caro, e depois mandar o assessor pagar a conta. É que aqui o “assessor” somos nós — os oeirenses. E nós não temos menu executivo, nem descontos especiais, nem opção de recusar o prato.

Pagamos. Sempre.

No fim, sobra a frase que melhor resume a distância entre o que se diz e o que se faz: da retórica à prática vai um passo gigante. E Isaltino Morais, por mais que tente convencer o contrário, nunca deu esse passo. A habitação pode ser “o pilar de tudo”, como repete insistentemente. Mas se é o pilar, então estivemos duas décadas a viver num edifício sem fundações.

Apenas para recordar todos: O programa do Partido Socialista e de Ana Sofia Antunes, aquele que o atual presidente disse que não existia, era claro: Assumir a aplicação mínima do IMI, como apoio às famílias residentes no concelho

E para usar a assinatura que tanto gosta na sua rubrica semanal:

Azedo, senhor presidente. Azedo — e cada vez menos disfarçável.

Bruno Magro

Presidente da Concelhia PS Oeiras