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Por um mundo mais igualitário | Filipa Laborinho

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Por um mundo mais igualitário | Filipa Laborinho

(artigo de opinião de Filipa Laborinho)

A 9 de julho de 1985, o mundo parou para assistir ao Live Aid.

De Londres a Filadélfia, milhões uniram-se num gesto de solidariedade sem precedentes, com o objetivo de combater a fome na Etiópia. Foi um momento raro de convergência global, onde a música serviu de catalisador para a empatia e a ação coletiva. Quarenta anos depois, vale a pena perguntar: onde está hoje esse espírito?

Em 2025, o mundo é mais interligado, mas também mais fragmentado.

A recente cimeira do BRICS, no Brasil, mostrou um novo equilíbrio de forças, com o Sul Global a exigir mais voz e justiça nas decisões internacionais. As tensões geopolíticas, os conflitos armados e a crise climática continuam a dominar as manchetes.

Mas talvez o sinal mais preocupante venha dos Estados Unidos. O país que, em 1985, liderava os esforços de ajuda humanitária global, encerrou oficialmente a sua principal agência de desenvolvimento, a USAID.

Sob a administração Trump, 83% dos programas da agência foram cancelados, afetando projetos de saúde, educação e nutrição em dezenas de países.

A ajuda externa americana, que representava 42% da assistência mundial, foi drasticamente reduzida e subordinada a interesses estratégicos e comerciais.

O impacto é devastador. No sul da Ásia, por exemplo, milhares de trabalhadores humanitários foram despedidos, centros de saúde encerrados e milhões de pessoas ficaram sem acesso a serviços básicos. E nem vale a pena falar no impacto que tem em África.

A política de “América em primeiro lugar” tornou-se, na prática, uma política de “o resto do mundo por sua conta” ou mesmo “América contra o resto do mundo”.

Por cá, nem sequer é preciso explicar muito.

Ainda bem recentemente tivemos um líder partidário a divulgar nomes de crianças e a discriminá-las só porque tinham um nome diferente, no seguimento de uma jovem do seu grupo parlamentar ter feito um vídeo ainda mais vergonhoso.

Esta jovem precisava, claramente, de ter tido a oportunidade de participar num “Dia da Democracia” ou numa “COP Oeiras Valley”, na esperança de aprender algo sobre cidadania e respeito, quer em Portugal quer pelos povos do Mundo.

Ainda assim, há movimentos — sobretudo entre os jovens — que continuam a lutar. A tecnologia permite mobilizações globais em segundos.

O que falta, talvez, é o impulso emocional que o Live Aid conseguiu gerar — aquele momento em que o mundo se olha ao espelho e reconhece a sua humanidade comum.

É chocante ver onde estávamos e onde estamos.

Há 40 anos, num cenário de um mundo muito mais pobre, o Live Aid foi um, mais um, e o provavelmente o mais emblemático momento de solidariedade e união mundial por uma causa nobre, a pobreza em África e em particular na Etiópia.

Hoje acusamos o nosso vizinho de receber um RSI, um CSI, de ter uma cor diferente, uma opção de género diferente ou, simplesmente, ser DIFERENTE.

Que a memória desse dia que hoje faz 40 anos possa semear a solidariedade e a igualdade nas mentes, corações e futuras ações daqueles que hoje veem no seu igual mais do que um adversário, um inimigo.

Filipa Laborinho

(Artigo de Opinião resultante da Declaração Política feita na Reunião de Câmara de 09.07.2025)